Advocacia
Nelson de Menezes
Circo de horrores
13/06/2017
O pobre povo brasileiro foi brindado, durante a semana passada, com um verdadeiro show de excentricidades protagonizado pelos Ministros do Tribunal Superior Eleitoral. A profusão de metáforas e expressões inovadoras coroou um momento histórico e lamentável do Judiciário nacional: da matriarca da manada de elefantes ao avestruz enfiando a cabeça na terra, da propina-gordura ao enterro das provas vivas, de Américo 
Pisca-pisca aos versos de Louvação, de Torquato Neto. Tanto barulho, para nada.

Antigamente o futebol vivia das rendas obtidas nas bilheterias dos estádios, até que veio a televisão e superou em muito aquela remuneração; hoje os direitos televisivos são a menina dos olhos futebolísticos. Também antigamente, o Judiciário vivia de fazer justiça; hoje se presta ao espetáculo midiático, expondo suas entranhas em rede nacional. E já não é só a TV Justiça que transmite ao vivo e integralmente os julgamentos, mas canais privados desperdiçam seu valioso tempo para concorrer com a rede estatal, criando uma nova moda para os telespectadores. Depois de Suits, HouseofCards e séries do gênero, temos, em tempo real, a triste vida surreal: sessões de oito, dez horas, com toda sorte de atrações, do cômico ao bizarro.

Curiosamente, apenas os advogados foram unanimemente encomiados; de resto, as farpas foram lançadas por todos e contra todos. Ministros constrangendo Ministros, Procurador desafiando Ministros, Ministro reprimindo Procurador e até Ministro desejando que ira do profeta degolasse delatores. Nada faltou para o entretenimento da audiência; ninguém perdeu a oportunidade de se exibir, cada qual a seu modo: uns com falsa humildade, outros com arrogante jactância. Apenas esqueceram que não era um programa televisivo, mas um julgamento na mais alta Corte Eleitoral do País.

A política do panis et circenses (pão e circo), ou seja, o alimento suficiente acompanhado de uma boa diversão, é a velha forma de dominação, velha, mas que não sai de moda. Num país de famintos como o nosso, parece que temos circo de sobra. 

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