Caleidoscópio Cultural
André Cunha
Autores angustiantes e seus autômatos exasperantes
Livro perturbador de escritor irlandês evidencia o absurdo da existência
22/08/2018
Por que Mersault, personagem do romance O Estrangeiro, de Albert Camus, comete um assassinato à sangue frio na praia, sem qualquer motivo aparente? Por que o protagonista do romance Estorvo, de Chico Buarque, faz as barbaridades que faz? E por que Frederick Charles St. John, o bon-vivant inconsequente que narra O Livro das Evidências, de John Banville, comete o mais imbecil dos assassinatos, desgraçando a própria vida e de toda a família para sempre?

 

Escrito nos anos 80, fora de catálogo no Brasil há muitos anos e felizmente relançado no Brasil em 2018 pela Biblioteca Azul, selo da editora Globo Livros, o romance de Banville, descrito como “surpreendente e perturbador” pelo The New York Times Book Review, engrossa a lista de livros perturbadores sobre personagens que não sabem muito bem porque fazem as coisas que fazem. Narrado com uma prosa elegante, em primeira pessoa, relata as façanhas de um autômato - em sentido figurado uma pessoa que não pensa nem age por si mesma, que tem comportamento automático – durante uma experiência insólita: Frederick precisa de dinheiro para saldar uma dívida (contraída de forma estúpida), rouba um quadro valioso (com requintes de burrice) e mata uma testemunha que tenta detê-lo (a cena repulsiva é descrita com uma clareza desconcertante). Por que Frederick fez isso? “Era incompreensível. Mesmo assim, quando eu digo eu fiz isso, não tenho certeza de saber o que quero dizer (...) Neste processo não há nenhum momento em que possa confiantemente dizer: isso, foi nesse instante que eu decidi que ela deveria morrer.  Decidir? – não penso que tenha sido questão de decidir. Eu nem mesmo penso que tenha sido questão de pensar.”

 

Junto com o ensaio O Mito de Sísifo e a peça Calígula, O Estrangeiro integra o “ciclo do absurdo” na obra de Camus e explora, de forma literária, a filosofia existencialista, que inspirou Chico Buarque, John Banville e tantos outros: pessoas fazem coisas sem sentido, é evidente. Pense nisso.

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