Caleidoscópio Cultural
André Cunha
Cortei a relação
A protagonista da série Sharp Objects vai escrever uma história. E eu não vou lê-la
10/08/2018

Farejando no ar uma história, o editor do St. Louis Chronicle envia a jornalista Camille Preaker (Amy Adams) numa missão investigativa: “Vá até lá e escreva uma história agora. Então, adeus.” Quando chega lá, Camille revela para uma amiga: “É por isso que estou aqui. Estou escrevendo uma história.” Mais tarde, questionada pela mãe – “você está aqui para escrever uma história?” -, ela confirma: “Sim, é para um jornal. Pode ser uma história importante.” E, para um detetive charmoso, diz: “Você sabe que conseguirei a história de qualquer maneira.”

 

Ok, Camille é uma jornalista investigativa e vai escrever uma história, esse clichê ficou claro. Mas sobre o que, mesmo? Sobre, como diz a sinopse da série Sharp Objects, dirigida por Jean-Marc Vallée, “os misteriosos assassinatos de duas adolescentes.” Outro clichê? Espere até ouvir os próximos: Camille retorna a sua cidade natal, o que “traz à tona os fantasmas do seu passado.” Ela tem “distúrbios emocionais”, pratica automutilação e enche os tubos de vodca. Ela tem “problemas” com a mãe, uma socialite muito provavelmente racista. Ela faz perguntas, anota as respostas num caderninho e tem sempre à mão uma frase sobre a liberdade de expressão e a liberdade de impressa. Quando fecha os olhos,  lembra do passado: um dia de verão, crianças brincando, gritinhos, sussurros, trilha sonora intimista e... e... um misterioso assassinato?

 

A série, produzida pela HBO, é baseada num livro de Gillian Flynn, que escreveu também Gone Girl, que por sua vez inspirou um filme horroroso do outrora promissor David Fincher. Não resta dúvida de que Flynn tem bons contatos em Holywood, o que não significa que escreva bem ou que tenha boas ideias. Assim como True Detective, Sharp Objects é uma série estilosa e com clima noir, mas seus detetives e jornalistas charmosos e perturbados, às voltas com conspirações sinistras, não parecem pessoas de verdade. Fica a sensação de uma história encomendada. Então, adeus. Boa sorte com a sua história, Camille.


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