Caleidoscópio Cultural
André Cunha
Levaram a piada a sério
O épico Planeta dos Macacos: A Guerra subverte (pra pior) o seu hipotexto
15/08/2017
Quando lançou, em 1963, o romance satírico Planeta dos Macacos, que criticava a vaidade humana ao colocar-nos em pé de igualdade cognitiva com os macacos (consequência delirante de uma viagem espacial e uma mutação na cadeia evolutiva), o escritor francês Pierre Boule jamais poderia imaginar que levariam a piada tão a sério. O livro inspirou o clássico Planeta dos Macacos (1968), com Charlton Heston, que por sua vez inspirou toda uma sequência de continuações nos anos seguintes, todas preservando, em maior ou menor grau, o elemento satírico – destaque pra uma seita de adoradores da bomba atômica em De Volta ao Planeta dos Macacos (1970).

Esse elemento está bastante diluído não só no remake Planeta dos Macacos (2001), dirigido por Tim Burton, como em Planeta dos Macacos: A Origem (2011), Planeta dos Macacos: O Confronto (2014) e agora no supostamente último da trilogia: Planeta dos Macacos: A Guerra (2017), dirigido por Matt Reeves, em cartaz nos cinemas do país. Pra não dizer inexistente. Influenciado por épicos como Ben-Hur (1959), Os Dez Mandamentos (1956) e A Ponte do Rio Kwai (1959), e coalhado de temas e imagens bíblicas, o filme não poderia ser menos satírico. Pelo contrário: tudo nele é melodramático, hollywoodiano no sentido mais pejorativo, e se no filme original de meiaoito os macacos produziam altercações jurídicas e filosóficas com os humanos, agora quase não há diálogo.

Afinal, esse é um filme “de guerra.” Ceasar, o líder da resistência símia (estranhamente um dos únicos macacos que conseguem falar, contrariando a teoria de que a linguagem se espalha como um vírus), é um herói em busca de vingança e um líder político. Os demais macacos pulam, guincham (u-huuu) e correm de um lado pro outro como meros coadjuvantes de uma guerra no mínimo assimétrica – eles dão cambalhotas, pulam em galhos de árvores e se jogam, nus em pelo, contra humanos fortemente armados. É um espetáculo de maus-tratos.  O pior é que eles ganham. 


Confira o trailer:

https://www.youtube.com/watch?v=QzgWDG4QviU

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