Caleidoscópio Cultural
André Cunha
Somos todos Paul Beatty?
Romance premiado insulta negros, brancos, mulheres, gays, mexicanos e asiáticos
12/09/2017
?Há dois tipos de piada envolvendo raça: a racista, na qual o piadista revela o seu abjeto preconceito, e a racial, na qual o mesmo aborda o tema de forma irreverente e ousada. A linha que separa uma da outra nem sempre é clara, mas não parece haver dúvidas que Paul Beatty, autor do romance O Vendido, publicado no Brasil pela Todavia, vencedor do último Man Booker Prize, pertence ao segundo tipo: em seu currículo constam outros livros com a mesma temática, a função de editor em Hokum: An Anthology of African-American Humor (uma antologia de humor afro-americano) e estudos acadêmicos na área. 

Amparado por tal profusão de referências pessoais, profissionais e intelectuais Beatty solta o verbo em O Vendido, que conta a história de um negro disposto a resgatar a segregação racial num subúrbio de Los Angeles com o objetivo de criticar o racismo velado da sociedade. Tanto o narrador quanto os personagens usam expressões como “negros ignorantes”, “negro esnobe” e “esses merdinhas desses microcomediantes negros” o tempo todo. A palavra nigger (crioulo) aparece incontáveis vezes, como em “crioulo inútil e desajeitado.” Há mais: “Fique longe de mulher que gosta de Nina Simone e tem amigo veado” explica o pai do narrador, um psicólogo excêntrico, “elas odeiam homens.”

Não há dúvida que Beatty é um escritor cômico de algum talento, apesar de monotemático. Ao longo do livro os mais diversos aspectos da história, política e cultura norte-americanas são analisados pelo prisma racial, o que o torna repetitivo. Trechos narrativos são interrompidos longos parágrafos dissertativos nos quais o autor expõe suas ideias sobre raça. Não há tirada proferida por Beatty que possa pegar mal, afinal trata-se de um especialista no assunto. Se pegou mal pra você, caro leitor, é porque não entendeu a piada. De resto ninguém deveria ser obrigado a ter doutorado em racismo pra ter o privilégio de dizer o que quiser e como quiser sobre raça. Ou deveria?  Eis aí um bom tema pra uma sátira.


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