LBV
Paiva Netto
A queda de todas as bastilhas
Hoje se faz necess√°rio p√īr abaixo as bastilhas invis√≠veis, todavia, de consequ√™ncias bem palp√°veis: espirituais, morais, psicol√≥gicas, do sentimento.
24/07/2017
Dia 14 de julho. Completam-se 228 anos da Queda da Bastilha, episódio que deflagrou a Revolução Francesa (infelizmente manchada pelo sangue dos guilhotinados), cujas origens remontam aos enciclopedistas, vanguardeiros do iluminismo. Relativo ao tema, selecionei apontamentos meus, ao longo do tempo, de palestras, programas de rádio, TV e de artigos publicados no Brasil e no exterior.

N√£o tenho pretens√£o de discutir aspectos hist√≥ricos ? existem bons livros para isso ?, contudo extrair uma importante analogia sobre quanto ainda √© for√ßoso trilhar a fim de que as popula√ß√Ķes da Terra deixem ruir de suas mentes e cora√ß√Ķes a pior de todas as bastilhas: a ignor√Ęncia acerca da realidade gritante da vida ap√≥s o fen√īmeno da morte. Fator decisivo para que a valoriza√ß√£o do ser integral (corpo e Esp√≠rito) dite as regras dos governos das na√ß√Ķes no Terceiro Mil√™nio: Quando garoto, devia ter 9 para 10 anos, assisti com meu pai, Bruno Sim√Ķes de Paiva (1911-2000), no Rio de Janeiro, a um filme sobre o 14 de Julho.

Nos s√©culos 17 e 18, o absolutismo mon√°rquico atingira intensa proje√ß√£o. Como geralmente acontece nas rela√ß√Ķes cotidianas, se afastadas do respeito ao Esp√≠rito Eterno do ser humano, houve por parte da monarquia francesa um descaso tremendo com as necessidades b√°sicas do seu povo, cuja express√£o mais grotesca seria a frase que teria sido proferida pela rainha Maria Antonieta (1755-1793), ao ser informada por um dos cortes√Ķes de que o barulho que a importunava vinha das massas famintas clamando por p√£o: ‚ÄúPor que n√£o comem brioche?‚ÄĚ. 

Tal conting√™ncia desumana tinha de desmoronar por for√ßa do curso inexor√°vel da Hist√≥ria. A popula√ß√£o de Paris, em 14 de julho de 1789, desesperada, marchou contra a pris√£o, s√≠mbolo da tirania de que desejava livrar-se. 

  Abrir caminhos

Nesse filme h√° uma cena impressionante. Ela representa as pessoas que n√£o temem abrir caminhos: o povo estava de um lado e aqueles que protegiam a Bastilha, do outro. Entretanto, os que amea√ßavam invadi-la, com temor, n√£o avan√ßavam. De repente, um homem destacou-se do meio daquela multid√£o e atravessou a ponte que cobria o fosso, sendo abatido por uma descarga de tiros. Esse ato de coragem fez com que os demais o imitassem e, assim, conseguissem entrar na fortaleza. Parece perspectiva rom√Ęntica de um momento tr√°gico, por√©m retrata de modo irretoc√°vel uma verdade: h√° sempre algu√©m que se sacrifica pela mudan√ßa substancial do status quo. N√£o √© preciso levar bala para que as transforma√ß√Ķes ocorram. H√° outros choques que ferem mais os vanguardeiros, a exemplo da incompreens√£o, da inveja, do preconceito, da persegui√ß√£o e do boicote. 

Na sequ√™ncia do longa-metragem, observamos a tomada da pris√£o, destru√≠da de cima a baixo. 

Existem aqueles que, tentando minimizar o fato hist√≥rico, apresentam uma argumenta√ß√£o frugal de que o famoso c√°rcere n√£o mais tinha relev√Ęncia naquele per√≠odo, pois apenas uns poucos presos l√° se encontravam.

Ora, o que o povo demoliu não só foi a construção de pedra; no entanto, o mais expressivo emblema, para ele, do absolutismo dinástico!

E a palavra dinastia pode, por extensão, significar muita coisa, uma vez que funciona tanto no feudalismo quanto na burguesia, no capitalismo e no próprio comunismo. Dinastia não implica somente a sucessão por sangue. Existe uma pior: a da ambição desmedida que arrasa o ser vivente, sob qualquer regime.

  Uma nova civiliza√ß√£o

Hoje se faz necess√°rio p√īr abaixo as bastilhas invis√≠veis, todavia, de consequ√™ncias bem palp√°veis: espirituais, morais, psicol√≥gicas, do sentimento. 

Fa√ßamos florescer uma civiliza√ß√£o nova a partir da postura mental e espiritual elevada de cada criatura. J√° dizia o fil√≥sofo: ‚ÄúA fronteira mais dif√≠cil a ser transposta √© a do c√©rebro humano‚ÄĚ. O homem foi √† Lua, mas ainda n√£o conhece a si mesmo. 

O Templo da Boa Vontade ‚ÄĒ aclamado pelo povo como uma das sete maravilhas de Bras√≠lia e que, segundo dados oficiais da Secretaria de Turismo do Distrito Federal (Setur-DF), √© o monumento mais visitado da capital do pa√≠s ‚ÄĒ convida as criaturas a essa epopeia de empreender uma viagem ao seu pr√≥prio interior. Feito isso, sair at√© mesmo da Via L√°ctea ser√° fac√≠limo: desde que descubramos o √Ęmago celeste de nosso ser, pois, na verdade, para o Esp√≠rito, o espa√ßo n√£o existe. 

Assegurou Jesus: ‚ÄúTudo √© poss√≠vel √†quele que cr√™‚ÄĚ (Evangelho, segundo Marcos, 9:23).

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