LBV
Paiva Netto
Quem tem ideal n√£o envelhece
19/06/2017
Achei, nos meus alfarr√°bios, texto que publiquei, em 3 de maio de 1987, na Folha de S. Paulo, dedicado √† Melhor Idade:

Na Religi√£o de Deus, do Cristo e do Esp√≠rito Santo procuramos sempre aliar a energia dadivosa dos mais novos ao patrim√īnio da experi√™ncia dos mais idosos. E isto se consegue pela influ√™ncia do Amor Fraterno, que n√£o √© velho nem novo; √© eterno porque √© Deus. O Pai Celestial √© Amor, consoante definiu Jo√£o, em sua Primeira Ep√≠stola, 4:8. E completava Zarur: ‚ÄúE nada existe fora desse Amor‚ÄĚ. Por isso, quem tem ideal n√£o envelhece. O corpo pode baquear. Mas o Esp√≠rito est√° sempre alerta. Jovem √© aquele que n√£o perdeu o Ideal no Bem.

Que √© novo, que √© o antigo, afinal? Nada! Immanuel Kant (1724-1804), o grande fil√≥sofo alem√£o, autor de Cr√≠tica da Raz√£o Pura, afirmava, mutatis mutandis, que o tempo √© a grande mentira dos homens. Portanto, acima de tempo-espa√ßo e seus limites. Real √© a Vida, que √© eterna.

Sid√≥nio Muralha, poeta portugu√™s que se radicou no Brasil, onde viveu at√© o seu falecimento em 1982, louvou essa eternidade do valor intemporal no seu bel√≠ssimo ‚ÄúC√Ęntico √† Velhice‚ÄĚ: ‚Äú(...) √Č este o c√Ęntico/ Dedicado ao que chamam/de velhice/ que √© a inf√Ęncia/ lan√ßada mais longe,/ onde o horizonte/ se rasga e alarga (...)‚ÄĚ. 

A composi√ß√£o po√©tica, a recebemos de Dona Helen Anne Butler Muralha, esposa do saudoso poeta, que gentilmente tamb√©m nos cedeu a foto do casal. Vamos, ent√£o, ao esfor√ßo bem-sucedido de Muralha, por desmistificar o tempo, esse fantasma que atormenta o homem-ser-restrito, at√© que um dia ele perceba que, na verdade, √© Esp√≠rito Eterno, pairando acima de todos os grilh√Ķes da carne perec√≠vel.  

  ‚ÄúC√Ęntico √† Velhice‚ÄĚ

‚ÄúMinha velha Portuguesa/ com o teu rosto marcado,/ mas sem medo da vida/ (e ainda menos da morte),/ atira o teu cajado contra o tempo/ que passa e n√£o tem presente,/ porque na segunda s√≠laba do  presente/ j√° passou a ser passado.

“Atira teu cajado, companheira,/ contra esse tempo efémero/ que não consegue apagar-nos.

‚ÄúN√≥s corremos no sangue/ das novas gera√ß√Ķes/ e os velhos s√£o as crian√ßas/ do futuro, /as primaveras que vieram dos invernos,/ as flores que rebentam,/ que explodem da terra,/ como tu,/ minha querida portuguesa,/ que em cada ruga que tens/ existe um poema escrito/ t√£o grande e t√£o profundo/ que √© um c√Ęntico √† velhice.

‚ÄúSim, um c√Ęntico sem fronteiras,/ porque os velhos/ t√™m asas imensas/ que voam no sentido contr√°rio,/ desafiando o espa√ßo/ como quem ro√ßa o mar,/ mergulha para sempre/ mas deixa, perto do sol,/ uma mensagem salgada.

“Velha portuguesa/ feita de oceano/ como todos nós,/ que somos navios,/ barcos, canoas,/ remos e lemos,/ quilhas,/ algas e maresia,/ mastros de audácia/ que derrotam tempestades,/ caravelas, descobertas,/ velha portuguesa/ descobre que o tempo/ tem medo do teu cajado/ e desanca as horas,/ e desaba as horas,/ e desaba os relógios/ que são acidentes/indecentemente formais.

‚Äú√Č este o c√Ęntico/ dedicado ao que chamam/ de velhice/ que √© a inf√Ęncia/ lan√ßada mais longe,/ onde o horizonte/se rasga e alarga.

‚ÄúN√£o esque√ßas, portuguesa amiga,/ de vergastares o tempo/com o teu cajado.‚ÄĚ   

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