Delator revela a Bretas suposta compra de votos pelo Rio-2016 na √Āfrica
Jamil Chade
Genebra
16/05/2018 19h03
"Um sucesso". Teria sido com essas palavras que Ruy Cezar Miranda, ex-assessor do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes, explicou o resultado de uma visita do Comit√™ Rio-2016 na √Āfrica e que resultou nos votos do continente para a candidatura carioca para sediar os Jogos Ol√≠mpicos. Ao explicar o "sucesso", por√©m, o ex-assessor teria feito com as m√£os um gesto de dinheiro.

O relato foi feito nesta quarta-feira pelo principal delator do suposto esquema de corrup√ß√£o no Rio-2016, o ex-atleta ol√≠mpico Eric Maleson, que hoje vive nos Estados Unidos em um endere√ßo mantido em sigilo. As informa√ß√Ķes foram prestadas ao juiz federal Marcelo Bretas, por meio de v√≠deo confer√™ncia.

Ruy Cezar tinha sido o secretário extraordinário para a Copa de 2014 e Olimpíada de 2016. Mas, ainda em 2009, se encontrou por acaso com Maleson, que na época ocupava o cargo de presidente da Confederação Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG). "Ruy Cezar tinha acabado de voltar da Nigéria, com Carlos Arthur Nuzman (ex-presidente do Comitê Olímpico do Brasil)", disse Maleson ao Estado, relatando sua audiência com Bretas.

"Eu o conhecia por conta de uma tentativa que tivemos de trazer uma pista de gelo e que não se concretizou. Mas, naquele momento, eu o questionei como havia sido a viagem para a Nigéria e ele respondeu fazendo um gesto de dinheiro, insinuando que houve a compra de apoio", contou. O relato foi apresentado na presença da defesa de Nuzman e do ex-governador Sérgio Cabral.

A viagem para Abidjan foi realizada pelo Rio-2016 com o objetivo de convencer os dirigentes africanos a apoiar o projeto carioca. Em investiga√ß√Ķes na Fran√ßa, por√©m, a suspeita √© de que o ex-presidente da Associa√ß√£o Internacional de Federa√ß√Ķes de Atletismo (IAAF), o africano Lamine Diack, tenha sido o intermedi√°rio dos pagamentos.

Conforme o Estado havia antecipado, Eric Maleson, tamb√©m denunciou a Bretas uma estrat√©gia mais ampla entre Cabral e Nuzman. "O objetivo maior era o de garantir que esses eventos trouxessem visibilidade para Cabral e que o apoiassem em uma candidatura √† presid√™ncia da Rep√ļblica", disse.

Segundo ele, Nuzman teria fechado um acordo com o ex-governador Sérgio Cabral para levar os megaeventos esportivos no País ao Rio de Janeiro como um trampolim para ajudar o político carioca em sua ambição política.

Segundo ele, quem o detalhou o pacto foi Edson Menezes, na √©poca diretor financeiro do COB. "Num certo momento, ele me deu uma carona, quando as cidades brasileiras ainda competiam para ver quem seria a candidata brasileira para os Jogos de 2016", disse. "Edson me perguntou em quem eu votaria e eu disse que seria pelo Rio, por ter o melhor projeto. Mas ent√£o ele me disse que esse n√£o deveria ser o √ļnico motivo e me explicou o arranjo entre Nuzman e Cabral", relatou.

Ao escolher o Rio como candidato brasileiro para sediar a Olimpíada, o COB ainda estaria violando uma posição que deveria adotar de neutralidade em relação às demais cidades brasileiras. "Por ter objetivos políticos, ganhar a sede dos Jogos precisava ocorrer a qualquer custo", afirmou Maleson.

SENTEN√áA - O delator ainda relatou a Bretas como ocorreu seu afastamento da CBDG. Segundo ele, o desembargador Ademir Pimentel aceitou uma den√ļncia de m√° gest√£o tr√™s semanas depois que ele foi o √ļnico cartola a votar contra Nuzman, nas elei√ß√Ķes do COB.

"O mesmo desembargador, algumas semanas antes, tinha decidido por me manter no cargo. Meus advogados me disseram que tinham recebido a informação de que Nuzman pagou caro para se livrar de mim", relatou Maleson. "Eles também me disseram que, se eu quisesse reverter a decisão, eu teria de gastar pelo menos R$ 370 mil, o que eu não aceitei", disse.

Foi a partir da dela√ß√£o de Maleson que o esquema de votos do Rio-2016 foi revelado. Ex-presidente da Confedera√ß√£o Brasileira de Desportos no Gelo (CBDG), Maleson j√° indicou que seus alertas lan√ßados at√© mesmo ao COI n√£o tinham surtido qualquer impacto. Sem uma rea√ß√£o satisfat√≥ria, a testemunha teria optado por prestar depoimento de forma volunt√°ria ao Minist√©rio P√ļblico da Fran√ßa, antes mesmo de iniciar os Jogos de 2016 no Brasil.

Em colabora√ß√£o com o Minist√©rio P√ļblico brasileiro, os franceses lan√ßaram uma ampla opera√ß√£o sobre a compra de votos pelo Rio de Janeiro e sobre o papel de Nuzman como intermedi√°rio. O cartola acabou sendo afastado pelo COI e o COB foi suspenso de toda rela√ß√£o com o movimento ol√≠mpico.

Tanto o Rio-2016 como o COB e Nuzman negam qualquer tipo de irregularidade no processo de seleção edacidade carioca como sede dos Jogos Olímpicos.

AE
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