'Eu não faria diferente a negociação da Arena Corinthians', diz Rosenberg
Daniel Batista
S√£o Paulo
14/03/2018 06h45
Luiz Paulo Rosenberg voltou ao Corinthians como gerente de marketing para encerrar um ciclo que se iniciou em 2008, quando chegou em um clube rebaixado no Campeonato Brasileiro e que conseguiu uma recuperação que culminou com o título mundial em 2012. Desta vez, os desafios são bem diferentes e o principal deles é o pagamento da Arena Corinthians. O Estado conversou com o dirigente e ele garantiu que o estádio ainda vai dar muito dinheiro ao clube.

O que te fez voltar ao Corinthians?

A tenta√ß√£o. √Č irresist√≠vel. Eu trabalho h√° 50 anos como economista, tentando trazer felicidade para o povo e os sucessos foram limitados, mas os cinco anos que trabalhei no Corinthians antes, trazendo da S√©rie B para campe√£o mundial, √© especial e mudamos o patamar do clube. Vivemos um momento de questionamento em rela√ß√£o a Arena, temos a percep√ß√£o de que o Corinthians encolheu e a volta do Andr√©s tamb√©m me motivou, pois ele te d√° condi√ß√Ķes de trabalhar de uma forma que eu s√≥ vi com o Delfim Neto.

Como valorizar a marca Corinthians?

Sei que estou falando com uma na√ß√£o e n√£o com um bando de corneteiros. Sei tamb√©m como eles gostam de certas coisas. Uma das coisas mais bacanas que criamos na outra gest√£o foi a Rep√ļblica Popular do Corinthians e vamos resgatar isso. Somos como os catal√£es. N√£o tem nada contra a Espanha, mas n√£o √© espanhol. Eu sou corintiano, n√£o sou brasileiro. Admito que o Flamengo tem mais torcida. Me d√≥i o cora√ß√£o admitir isso, mas flamenguista n√£o tem essa paix√£o.

O Corinthians vai conseguir pagar a Arena?

Em toda essa discussão, está se perdendo um aspecto fundamental. Lá (em Itaquera) existem duas arenas, a do Corinthians, valorizada para dar lucro ao clube, e uma arena complementar, que permitiu a abertura da Copa do Mundo em São Paulo. Se você ver nos arquivos do Estado, vai ler que desde o início a gente falava em construir estádio para o Corinthians, mas que a gente faria um sacrifício de receber a Copa. Foi algo patriota, mas tínhamos uma condição: não íamos pagar esse adicional. Foi montada uma equação para que isso acontecesse e as coisas se perderam no meio do caminho.

Mas a dívida continua lá...

Sim e o que estamos fazendo é insistir na volta do que foi acordado, aquele empréstimo do BNDES por meio do ProCopa e que o Corinthians teria direito por receber a Copa, mas não necessariamente a abertura. Vamos discutir um pouco mais esse adicional. Faltou agilidade e maior capacidade de respostas do Corinthians em fazer esse acordo. Vamos honrar o nosso compromisso com seriedade.

Pela sua resposta, a Prefeitura e o Governo não honraram com seus compromissos e deixaram a dívida para o Corinthians. Vai cobrá-los, então?

H√° uma s√©rie de circunst√Ęncias. H√° fatores que n√£o estavam considerados inicialmente, voc√™ lembrou bem. A negocia√ß√£o √© algo complexo, que envolve Prefeitura, Governo do Estado, Governo Federal, BNDES, Caixa Econ√īmica Federal, Odebrecht e Corinthians. Para botar ordem nesse coreto, √© preciso respeito m√ļtuo e vontade de todas as partes para montar esse quebra-cabe√ßa.

Você disse em sacrifício para receber a Copa. Por que aceitou receber o Mundial, então? Sem a Copa, o Corinthians não teria estádio?

O estádio teria saído e seria mais fácil de fazê-lo. O acréscimo que ele sofreu de espaço pela necessidade de ser abertura não gera receita. São corredores mais amplos e área administrativa, por exemplo. Essa preocupação a gente teve. Eu não ia ganhar nada com isso, mas nunca passamos pela cabeça de evadir da responsabilidade.

Por quê?

Lembra que desde o primeiro momento defendemos a abertura da Copa no Morumbi. Como economista, eu não podia admitir que precisava fazer um outro estádio existindo o Morumbi. Era só dar uma modernizada e pronto, mas foi fraqueza do Governo não bater o pé. Eles deveriam dizer: "Se a Copa não for no Morumbi, não tem abertura em São Paulo e não tem Copa no Brasil, oras. Mas não. Parecia que o dia que o Mundial fosse disputado no Brasil, a gente ia passar para a liga dos países desenvolvidos. Mas decidimos assumir esse compromisso (receber a Copa) sem discutir.

Pode explicar como, de fato, é feito o pagamento da Arena?

Quem fez a montagem e adequa√ß√£o financeira, certamente foi eu. Basicamente √© uma estrutura de colocar no fundo. J√° que √© investimento com dinheiro p√ļblico e levaria 12 anos para pagar, n√£o tinha cabimento a gente usar dinheiro do Corinthians na arena. Criamos um fundo para proteger o patrim√īnio do clube e nessa estrutura de fundo, √© muito bonitinho como funciona. A Caixa colocou o dinheiro l√° atrav√©s de cotas. Ela ganhou cotas no fundo e cada cota √© uma presta√ß√£o do Corinthians. O clube deu a concess√£o do terreno e autoriza√ß√£o do uso da marca. Qual √© a jogada? O Corinthians tem que a cada m√™s pagar a Caixa, que paga o BNDES. Funcionando tudo normalmente, o Corinthians comprou todas as contas, √© dono de todo o fundo e pronto. Esse √© o modelo. E as receitas da arena v√£o para o fundo que serve para acumular o dinheiro e comprar essas cotas. √Č tudo muito transparente.

Não daria para fazer um negócio melhor? O Corinthians vai ficar sem a renda do estádio por muitos anos...

Mas uma negocia√ß√£o tem que ser justa. √Č como se voc√™ chegasse na concession√°ria, comprasse um carro e depois ia reclamar que queria dinheiro para a gasolina e para gastar na balada, com as meninas. Eu n√£o faria diferente a negocia√ß√£o. N√£o deixei entrar dinheiro do patroc√≠nio da camisa e nem receitas do Corinthians. Criei um fundo para a arena, e √© justo que o que ela gerar de receita, v√° para pag√°-la. E quando a arena decolar, passar essa crise, pago o financiamento e ainda sobra dinheiro.

Os R$ 300 milh√Ķes que voc√™s pediam de 'naming Rights' √© utopia hoje, n√£o? Quanto voc√™s querem?

O que tem √© o seguinte. Um bom momento para fazer grandes neg√≥cios √© quando voc√™ est√° saindo da crise e vislumbrando a luz no fim do t√ļnel, que √© o que acontece agora. O empres√°rio que estava recolhido, ele se assanha. Nos √ļltimos dias, a gente teve uns cinco grandes contatos com empresas interessadas em falar do assunto.

Cinco contatos por Naming right? Pode falar mais sobre isso?

N√£o tem nada, calma. E nem vou estipular prazo, como o Andr√©s fez tantas vezes, para n√£o ser cobrado depois. √Č uma negocia√ß√£o complicada, mas o interesse das empresas mostra que √© algo que devemos tratar como prioridade.

Uma das ideias para quitar a dívida é aumentar o prazo para pagamento?

Não tem uma ideia principal neste momento. São pequenas coisas e algo que pode ser benéfico é que todo mundo passa por dificuldades. Vamos sentar e discutir uma forma de que todos consigam honrar seus compromissos, sem calote, sem briga.

Qual a principal diferença entre Arena Corinthians e Allianz Parque, os dois estádios mais modernos do Estado?

Existem duas diferen√ßas principais. A primeira √© que uma das grandes m√°goas do corintiano era n√£o ter est√°dio. A gente teve a Fazendinha, mas virou coisa retr√≥grada e sent√≠amos a necessidade de ter o est√°dio. √Č a nossa Bras√≠lia, a capital. O Corinthians nunca trabalhou com modelo de ser inquilino, queria ser dono. J√° o Palmeiras sempre teve est√°dio. Para eles, sair de um modelo para que o propriet√°rio tenha como grosso de receita a realiza√ß√£o de shows e que o futebol √© algo complementar, para eles faz sentido. Da√≠ j√° tem uma divis√£o. E acho que n√£o tem certo ou errado. Cada um tem seus traumas. Se for analisar o local do est√°dio, n√≥s estamos em uma regi√£o que o metro quadrado √© mais barato e isso nos permite ser mais espa√ßosos. Neste ponto, a vis√£o √© brutal. Entre a monumentalidade do est√°dio do Corinthians e o aperto que √© a arena do Palmeiras, a diferen√ßa √© muito clara.

A Odebrecht alega que o estádio saiu mais caro que o projetado, porque você resolveu encarecer com vidros importados, colocando mármore até em escadas, Tvs no banheiro, painéis de LED, entre outras coisas. Precisava de tudo isso?

Precisava e explico o motivo. A Odebrecht entende de relacionamento entre empreiteira e governo. Do que precisa ter um est√°dio para agradar uma multinacional √© algo diferente e fizemos pesquisas sobre isso. A pr√≥pria concep√ß√£o do est√°dio reconhece que existem v√°rias classes de renda entre os corintianos. Tenho o Setor Norte que foi modelado para receber as organizadas e n√£o tem acento. No outro lado, onde ficaria aos visitantes, fizemos algo diferente. No Leste √© classe m√©dia, tem conforto, mas n√£o tem camarote. E o Oeste √© a parte para clientes corporativos, empresas que querem fazer do jogo uma experi√™ncia √ļnica. Eu n√£o estou jogando dinheiro fora. Ent√£o os est√°dios americanos jogaram dinheiro fora quando fizeram seus est√°dios modernos? Isso voc√™ recupera no pre√ßo do camarote. Ela (Odebrecht) tem raz√£o quanto aos vidros. Quando ela me trouxe a fachada do est√°dio, vi que o vidro era verde. Ela disse que todo vidro produzido no Brasil √© verde. Tudo bem, ent√£o vai buscar o vidro no inferno, mas n√£o vou, depois de 100 anos, fazer uma fachada do est√°dio do Corinthians em verde. Isso encareceu mesmo, pois foram buscar o vidro na B√©lgica. Em compensa√ß√£o, peguei itens do or√ßamento que a Odebrecht fez e o nosso arquiteto dizia que estava inflado e falei que aqueles itens n√≥s que √≠amos aprovar e o que consegui de desconto foi maior do que o gasto extra com o vidro. Fiz uma troca, se √© ofensivo para o corintiano, eu pago mais. O que √© ofensivo para o meu bolso, eu pago menos.

Você fala muito sobre marketing agressivo? O que seria isso na prática?

Te dou um exemplo. Esses dias, fui em uma grande incorpora√ß√£o. Eu n√£o chamei ningu√©m no meu escrit√≥rio ou no Corinthians, eu fui l√° e disse: 'Estudei a natureza da sua empresa, a gente acha que pode te ajudar a aumentar o faturamento'. Falei coisas para eles que foram surpreendentes e de extremo agrado. A gente se junta com a empresa e faz um projeto legal para ela investir em n√≥s. √Č algo que uma ag√™ncia de propaganda criaria uma fortuna. O normal do clube √© ficar sentado esperando. N√≥s vamos para o ataque. V√™ um potencial investidor e vai at√© ele. √Č aquela alma corintiana, de ter prazer em fazer acontecer. Dessa vez n√£o tem oba-oba, o que tem √© muito empenho e preocupa√ß√£o. Ningu√©m est√° soltando roj√£o aqui.

Corinthians sem patrocínio master por tanto tempo é por falta de 'fazer acontecer'?

Sem d√ļvida. Na verdade, quando eu procuro um patrocinador, vou com o peito aberto. N√£o sei se vou vender um camarote, um peda√ßo da camisa, patroc√≠nio master ou naming rights. A prioridade zero √© o patroc√≠nio master, pois √© o que me d√° receita a curto prazo. Todo mundo sabe o que √© e √© s√≥ mostrar a estat√≠stica que a empresa fica louca.

Sua passagem anterior ficou marcada pelo Ronaldo. Pode chegar um novo astro?

Sendo honesto, o meu peso na vinda do Ronaldo foi zero. O Andres n√£o fala com a gente sobre isso. Ele s√≥ disse: 'Vai l√° e consegue o dinheiro para pagar o Ronaldo'. Se ele fizer isso, a gente vai atr√°s. Eu chegar e falar que preciso de um craque, vou estar mentindo. A gente n√£o precisa dessas coisas para atrair torcida. Isso √© mais coisa para a Vila S√īnia. Nosso craque √© a Fiel. Fazendo o que ela espera, ela n√£o precisa de craque, mas √© claro que se chegar um craque, facilita. O Ronaldo acelerou em cinco anos o que levar√≠amos dez para conseguir.

AE
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