Bitcoin poderá consumir 0,5% da energia elétrica do mundo até o fim do ano
F√°bio de Castro
16/05/2018 15h51
Imagine a quantidade de energia el√©trica consumida por resid√™ncias, com√©rcio e ilumina√ß√£o p√ļblica em toda a cidade de S√£o Paulo. Essa √© aproximadamente a quantidade de eletricidade gasta para produzir a moeda virtual bitcoin, de acordo com um novo estudo.

De acordo com a pesquisa realizada com uma nova metodologia pelo economista holandês Alex de Vries, especialista em bitcoins do Experience Center da PwC na Holanda, a rede de computadores envolvida na produção de bitcoins consome no mínimo 2,55 gigawatts por hora - um valor semelhante ao da energia elétrica consumida na cidade de São Paulo, ou em um país como a Irlanda.

Especialistas têm manifestado preocupação com a enorme quantidade de energia elétrica necessária para o processo industrial envolvido na emissão da moeda virtual bitcoin, mas até agora, esse consumo não havia sido medido por nenhum estudo científico rigoroso.

Com a crescente valorização do bitcoin, o autor afirma que esse consumo deverá crescer de forma expressiva até o fim de 2018, alcançando 7,7 gigawatts - cerca de 0,5% do consumo mundial de energia elétrica. A pesquisa teve seus resultados publicados nesta quarta-feira, 16, na Joule, a revista científica do grupo Cell dedicada a estudos sobre energia.

"Temos visto muitos cálculos improvisados, mas nós precisamos de uma discussão mais científica sobre o rumo dessa rede. Neste momento, de forma geral, a informação disponível tem qualidade bastante baixa. Por isso espero que esse artigo seja utilizado como fundamento para mais pesquisas", disse De Vries ao jornal O Estado de S. Paulo.

O economista, que √© fundador do blog Digiconomist, dedicado a fornecer informa√ß√Ķes usu√°rios de "criptomoeadas", afirma que uma √ļnica transa√ß√£o com bitcoin consome tanta eletricidade como a m√©dia de uma resid√™ncia holandesa durante um m√™s. Se at√© o fim do ano o consumo subir mesmo para 7,7 gigawatts, ele ser√° equivalente ao de um pa√≠s como a √Āustria.

"Para mim, 0,5% j√° √© bastante chocante. √Č uma diferen√ßa extrema em compara√ß√£o ao sistema financeiro convencional e essa demanda crescente de eletricidade definitivamente n√£o vai nos ajudar a alcan√ßar nossas metas clim√°ticas", afirmou De Vries.

De acordo com o economista, se o preço do bitcoin continuar a crescer da maneira como os especialistas estão prevendo, a rede poderá chegar a consumir nos próximos anos algo em torno de 5% da eletricidade do mundo. "Isso seria terrível", afirmou.

Embora o bitcoin seja uma moeda virtual, sua produ√ß√£o causa problemas bastante concretos como a emiss√£o de carbono na atmosfera. Na China, pa√≠s que concentra o maior n√ļmero de "mineradores" de bitcoins, a maior parte da energia el√©trica √© produzida pela queima do combust√≠vel f√≥ssil. "A eletricidade com base em carv√£o est√° dispon√≠vel na China com taxas muito baixas e pa√≠s concentra mais da metade das 'minas' de bitcoin", disse De Vries.

Um estudo feito por ele em dezembro de 2017 em uma "mina" de bitcoins na Mong√≥lia - onde a matriz energ√©tica tamb√©m se baseia no carv√£o - estimou que uma √ļnica transa√ß√£o com o bitcoins pode ter uma "pegada de carbono" semelhante √† de um passageiro voando por uma hora em um Boeing 747. "Pelos nossos c√°lculos, s√£o emitidas mais de 440 quilos de carbono para cada transa√ß√£o com o bitcoin."

Energia para "mineração"

Os bitcoins são criados por um processo complexo no qual supercomputadores processam continuamente cálculos matemáticos de alta complexidade, em milésimos de segundos, por meio de um software específico.

A cada 10 minutos, o software lan√ßa uma equa√ß√£o matem√°tica diferente. Ligados em uma esp√©cie de rede paralela na web, os computadores competem pela chance de desvendar essas equa√ß√Ķes, para criar a pr√≥xima cadeia de transa√ß√Ķes. O usu√°rio do comutador que decifrar primeiro os c√≥digos √© premiado com um lote de 12,5 bitcoins. Esse processo √© conhecido como "minera√ß√£o".

"Voc√™ est√° gerando n√ļmeros o tempo todo e as m√°quinas que s√£o usadas para isso gastam eletricidade. Se voc√™ quiser uma fatia maior do bolo, vai precisar aumentar seu poder computacional. Com isso, h√° um grande incentivo para que as pessoas aumentem seus gastos em computadores e em eletricidade", explica De Vries.

Metodologia

A metodologia de estimativa do gasto de energia utilizada por De Vries se baseia em calcular em que momento o incentivo deixa de ser economicamente vi√°vel. Os princ√≠pios econ√īmicos, segundo ele, sugerem que toda a rede de bitcoins em determinado momento alcan√ßar√° um equil√≠brio no qual os custos dos computadores e da eletricidade utilizados na minera√ß√£o chegar√£o a igualar o valor do bitcoin produzido. A partir da obten√ß√£o desse dado, ele consegue quantificar a eletricidade que a rede utilizar√° at√© alcan√ßar o ponto de equil√≠brio.

Outros pesquisadores j√° haviam utilizado o mesmo princ√≠pio em estudos anteriores, mas De Vries foi mais longe. Ele utilizou as informa√ß√Ķes do Bitmain, o maior fabricante de m√°quinas de minera√ß√£o de bitcoins, para estimar quanto dos custos de minera√ß√£o est√£o associados aos gastos com hardware, excluindo a eletricidade.

Embora De Vries tenha confian√ßa em suas estimativas, ele afirma que o problema de seu m√©todo √© que os fabricantes dos computadores s√£o extremamente sigilosos com seus dados. "√Äs vezes a melhor informa√ß√£o que temos √© um relato inst√°vel de testemunhas oculares. √Č com esse problema que temos que trabalhar a partir de agora."

Segundo De Vries, fazer uma boa estimativa do consumo de eletricidade pelo bitcoin √© importante para determinar a sustentabilidade das criptomoedas e para ajudar a formular as pol√≠ticas relacionadas a elas. Ele afirma que, nos Estados Unidos, alguns estados j√° come√ßaram a impor restri√ß√Ķes √† minera√ß√£o de bitcoins.

"Mas é preciso que essas políticas tenham fundamento em estudos sérios. Acredito que meu método é importante nesse aspecto, porque ele permite olhar para frente. O seu foco não é o que fazemos agora, mas para onde estamos indo. Acho que isso é algo que realmente precisamos conhecer para poder traçar políticas sobre o assunto", disse.

De Vries afirma, por√©m, que seus resultados deixam espa√ßo para discuss√Ķes sobre o m√©todo. "Acho que todos concordar√£o com os n√ļmeros que obtivemos sobre o consumo m√≠nimo de energia utilizada para a produ√ß√£o do bitcoin. Mas as estimativas futuras realmente deixam grande espa√ßo para discuss√£o. De fato, n√£o temos uma abordagem consensual, neste momento, para estimar o consumo de eletricidade no futuro. Espero que meu trabalho abra essa discuss√£o. Eu estou fazendo essa pesquisa, mas tem muita gente que tamb√©m deve estar estudando isso", declarou.

AE
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