Brasil tem maior nĂșmero de mortes violentas no mundo, aponta estudo
Jamil Chade, correspondente
Genebra
07/12/2017 13h37
O Brasil teve, no ano passado, o maior nĂșmero de mortes violentas do mundo. Foram 70,2 mil mortos, o que equivale a mais de 12% do total de registros em todo o planeta. O alerta faz parte de um novo informe publicado nesta quinta-feira, 7, pela entidade Small Arms Survey, considerada como referĂȘncia mundial para a questĂŁo de violĂȘncia armada. Em termos absolutos, a entidade aponta que a situação no Brasil supera a violĂȘncia na Índia, SĂ­ria, NigĂ©ria e Venezuela.

Segundo Gergely Hideg, autor do estudo, o nĂșmero inclui as estatĂ­sticas oficiais de homicĂ­dios - registradas pelos paĂ­ses - mas tambĂ©m as mortes violentas nĂŁo intencionais e mortes em intervençÔes legais. "O nĂșmero Ă© superior ao que as autoridades afirmam", disse o pesquisador, cuja instituição Ă© financiada pelo governo da Suíça e tem seus dados usados como base em programas da ONU.

A entidade estima que, em 2016, 560 mil pessoas foram mortas pelo mundo de forma violenta. Isso representa um assassinato a cada minuto. Sozinho, porém, o Brasil representa cerca de 12,5% dessas vítimas.

O tamanho da população certamente tem um impacto nesses nĂșmeros. Mas, por si sĂł, nĂŁo explica a dimensĂŁo da violĂȘncia. De forma geral, Hideg aponta para trĂȘs fatores que estariam levando ao cenĂĄrio de mortes: a falta do estado de direito para uma parcela da população, a cultura da violĂȘncia e o crime organizado.

Taxa

Se o Brasil lidera o ranking mundial em termos absolutos, Ă© a SĂ­ria que tem o maior nĂșmero de mortes por habitantes. Ela Ă© seguida por El Salvador, Venezuela, Honduras e AfeganistĂŁo.

Nesse caso, a taxa no Brasil subiu entre 2015 para 2016. Era de cerca de 26 para cada 100 mil pessoas e passou para cerca de 30. AlĂ©m de estar bastante acima da taxa mundial, de 7,5 mortes por 100 mil habitantes, o aumento dos nĂșmeros brasileiros contraria a tendĂȘncia de queda registrada no mundo.

Ainda por esse critĂ©rio, o Brasil Ă© o 16Âș mais violento do mundo, superando, ainda assim, paĂ­ses como Guatemala, ColĂŽmbia e RepĂșblica Centro Africana.

HomicĂ­dios

Em termos de homicĂ­dios, o estudo aponta para 58 mil mortes no Brasil em 2015. NĂŁo hĂĄ dados disponĂ­veis sobre 2016. "Em cidades como o Rio de Janeiro, a violĂȘncia de gangues, o uso excessivo de força pelo Estado, um sistema de Justiça criminal corrupto, a militarização de certas ĂĄreas e o acĂșmulo social de violĂȘncia - onde violĂȘncia gera mais violĂȘncia - Ă© o que marca as taxas extremamente elevadas de homicĂ­dios", aponta o levantamento.

"Traficantes de drogas, grupos de extermĂ­nio e milĂ­cias que promovem a extorsĂŁo de residentes de ĂĄreas inseguras, junto com a polĂ­cia e outros funcionĂĄrios pĂșblicos que oferecem proteção a esses grupos, sĂŁo centrais para a maioria dos crimes violentos que ocorrem no Rio", constata.

A violĂȘncia com armas de fogo aumentou no PaĂ­s entre 2015 e 2016. Atualmente, mais de 20% dos homicĂ­dios sĂŁo cometidos com essas armas.

FeminicĂ­dio

Outra constatação do levantamento Ă© de que o Brasil tem o terceiro maior nĂșmero de mortes de mulheres no mundo. De acordo com o estudo, 84% das vĂ­timas de mortes violentas sĂŁo homens no planeta. Mas meninas e mulheres somaram ainda assim 87 mil mortes.

Em termos absolutos, foram 10,7 mil mortes de mulheres na Índia, 6,4 mil na NigĂ©ria, 5,7 mil no Brasil e 4,4 mil no PaquistĂŁo.

PaĂ­ses em guerra

O informe também constata que a maioria das mortes violentas não ocorre em países em guerra. Em 2016, mortes resultantes de conflitos representaram apenas 18% do total de mortes violentas no mundo. Dos 23 países mais perigosos do mundo, apenas nove sofrem com guerras.

Em campos de batalha, o nĂșmero de mortes foi de 99 mil em 2016, abaixo dos 119 mil em 2015.

Futuro

Se essa realidade não mudar, a Small Arms Survey estima que, até 2030, 610 mil pessoas serão alvos de mortes violentas no mundo a cada ano. O estudo ainda estima que 1,35 milhão de vidas poderiam ser salvas até 2030 se governos reconhecessem a dimensão do problema.

Só em termos de homicídios, 825 mil deles poderiam ser evitados com medidas de controle e prevenção. A América Latina seria a região do mundo que mais se beneficiaria de uma mudança do comportamento de governos, com 489 mil vidas salvas até 2030.

AE
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