Com ex-presidente preso, Peru cria 'Comissión Lava Jato'
Fernando Nakagawa, enviado especial
Lima
16/04/2018 12h48
O procurador-geral da Na√ß√£o do Peru, Pablo S√°nchez Velarde, diz abertamente ter sofrido cr√≠ticas e acusa√ß√Ķes de grupos pol√≠ticos depois de o Minist√©rio P√ļblico levar para cadeia um ex-presidente peruano, agir para o pedido de pris√£o de outro ex-ocupante do Pal√°cio do Governo e ainda investigar dois outros ex-chefes do Executivo. "Eles sabem que n√≥s vamos investig√°-los."

"Temos um grupo de 30 procuradores e estamos indo muito bem na investigação vinculada à Lava Jato. Não se sente a pressão política, mas há forte opinião contra nosso trabalho no mundo político. Dizem que estamos investigando mal e fazendo perseguição", disse o procurador ao Broadcast, serviço de notícias em tempo real do Grupo Estado.

O trabalho dos procuradores, liderado por S√°nchez Velarde, gerou impacto pol√≠tico nunca visto no Peru. A investiga√ß√£o que envolve a maior empreiteira brasileira j√° levou para a cadeia o ex-presidente Ollanta Humala acusado de receber US$ 3 milh√Ķes de caixa dois da Odebrecht.

H√°, ainda, pedido de pris√£o para Alejandro Toledo que teria ficado com outros US$ 20 milh√Ķes pela constru√ß√£o da rodovia Interoce√Ęnica, que liga o Brasil ao Peru, mas est√° foragido nos Estados Unidos.

Outros dois ex-presidentes - Alan Garc√≠a e Pedro Pablo Kuczynski - s√£o investigados, sendo que o √ļltimo renunciou no m√™s passado em meio √† apura√ß√£o das autoridades de que ele teria recebido dinheiro da Odebrecht quando ainda era ministro de Toledo, entre 2005 e 2006.

Reação política

Diante de tantos nomes envolvidos no esquema, houve clara reação política - a exemplo do que ocorre no Brasil. No Congresso, há uma investigação que se autoproclama "Comissión Lava Jato", em alusão à operação brasileira. "Essa comissão faz uma investigação política. A nossa é técnica, jurídica e penal", rebate o procurador-geral Sánchez Velarde.

Modelo perverso

Presidida por uma deputada ligada ao grupo do ex-presidente Alberto Fujimori, a comissão é acusada de usar a investigação para prejudicar opositores aos fujimoristas.

A presidente da comissão, a deputada Rosa Bartra, faz parte do partido de Fujimori, a "Força Popular". A congressista se defende dizendo que o grupo tem sete deputados multipartidários.

"As empreiteiras institucionalizaram no meu pa√≠s um modelo brasileiro perverso de corrup√ß√£o. Essas empresas compravam servidores p√ļblicos e pol√≠ticos para ganhar projetos", acusa a deputada, que dispara abertamente contra as empreiteiras.

A imprensa peruana cita que, durante a elei√ß√£o de 2011, a Odebrecht fez doa√ß√Ķes aos dois candidatos: Ollanta Humala, atualmente preso, e a Keiko Fujimori, principal nome do grupo pol√≠tico de Rosa Bartra e que perdeu a elei√ß√£o. Keiko j√° foi interrogada pelos procuradores que investigam o caso Odebrecht.

Enquanto Rosa Bartra dispara contra as empresas, a investiga√ß√£o do Minist√©rio P√ļblico tem focado principalmente pol√≠ticos e gestores das empreiteiras.

Al√©m das empresas, a deputada tamb√©m acusa o pr√≥prio Minist√©rio P√ļblico de falta de transpar√™ncia e n√£o colaborar com o trabalho de investiga√ß√£o. A acusa√ß√£o √© respondida pelo procurador-geral.

"Colaboramos com o que podemos colaborar. H√° informa√ß√£o que n√£o podemos repassar ao Congresso simplesmente porque h√° partidos e pol√≠ticos de l√° que estamos investigando", diz. As informa√ß√Ķes s√£o do jornal O Estado de S. Paulo.

AE
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