'Estou pronto para ser preso', diz Lula em livro
Ricardo Galhardo e Marcelo Godoy
S√£o Paulo
14/03/2018 07h51
Em uma das três entrevistas que deram origem ao livro "A Verdade Vencerá - o povo sabe por que me condenam", o jornalista Juca Kfouri perguntou ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva sobre a possibilidade de se exilar em uma embaixada amiga em vez de aceitar passivamente a prisão. Lula admite estar pronto para enfrentar a prisão e nega a possibilidade de fuga: "Olha, conheço companheiros que ficaram 15 anos exilados e não tiveram voz aqui dentro, no Brasil".

No livro, que é assinado pelo próprio Lula e será lançado nesta sexta-feira, 16, em São Paulo, o ex-presidente, condenado a 12 anos e 1 mês de prisão em regime fechado por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex do Guarujá (SO), admite pela primeira vez estar pronto para enfrentar a cadeia.

Além disso, Lula adianta o discurso político que será usado para seus seguidores, o do preso político, injustiçado, que um dia será absolvido pela história. "O preço que vai ser pago historicamente é a mentira contada agora", diz Lula. "Eles querem prender? Prendam, paguem o preço", afirma.

Kfouri volta ao assunto com mais ênfase. "O senhor está cogitando a hipótese de ser preso?" Lula afirma: "Estou. O que não estou é preparado para a resistência armada, nem tenho mais idade. Como sou um democrata, nem aprender a atirar eu aprendi".

Na sequ√™ncia a editora Ivana Jinkings indaga: "Como √© que se prepara o esp√≠rito para isso?" "Eu n√£o preparo o esp√≠rito", diz Lula. "Eu sou um homem de esp√≠rito leve. Tudo isso faz parte da hist√≥ria (...) H√° duas inst√Ęncias superiores a que a gente pode recorrer e vamos recorrer. Eles v√£o tomar a decis√£o e estou pronto para ser preso. √Č uma decis√£o deles."

O livro da editora Boitempo é fruto de três entrevistas feitas por Kfouri, Ivana, Gilberto Maringoni e Maria Inês Nassif em fevereiro deste ano, depois, portanto, de o Tribunal Regional Federal da 4.ª Região (TRF-4) ter confirmado a condenação do petista. Além disso, traz textos de Luis Fernando Veríssimo, Luiz Felipe de Alencastro, Eric Nepomuceno e outros.

Dilma

Lula diz que faltou empenho pol√≠tico da presidente cassada Dilma Rousseff e sua equipe para evitar o impeachment. "Em todas as conversas que eu mantinha, as pessoas se queixavam 100% dele (Aloizio Mercadante) e 101% da Dilma. Cheguei a ponto de dizer para a Dilma: 'Olha, voc√™ vai passar para a hist√≥ria como a √ļnica presidente que nem os ministros defenderam'."

Al√©m disso, admite que o presidente Michel Temer, chamado por ele de "traidor", soube resistir melhor do que a petista, conta hist√≥rias de elei√ß√Ķes passadas - como o dia em que Leonel Brizola, j√° no segundo turno da disputa de 1989, sugeriu que ambos renunciassem em favor do tucano Mario Covas -, e evita fazer a defesa p√ļblica do ex-ministro da Casa Civil Jos√© Dirceu.

Lula revela ainda que Jo√£o Santana tentou, primeiro, fazer de Dilma uma "candidata-tamp√£o" e, depois, afast√°-la dele. Com bom humor, mostra aspectos de sua vida pessoal, como a rela√ß√£o com a bebida. "Duvido que um jornalista tenha me visto b√™bado. A √ļltima vez que bebi pra valer foi para ver Brasil e Holanda na Copa de 1974. A gente ficou guardando a bebida pra depois da vit√≥ria e tomamos de 2 a 0. Ficamos xingando os jogadores e bebemos."

Fidel

Inspiração de Luiz Inácio Lula da Silva, o discurso "A História me Absolverá" foi escrito como a defesa do advogado e líder da revolução cubana, Fidel Castro, diante do tribunal que o julgava em razão do ataque fracassado ao quartel Moncada, em Santiago de Cuba.

Era 1953. Fidel tentara a ação armada para derrubar o regime de Fulgêncio Batista. No discurso, ele se transformava em acusador do regime. "Quanto a mim, sei que a prisão será dura, como tem sido para todos - prenhe de ameaças, de vil e covarde rancor. Mas não a temo."

E terminava com a s√≠ntese de sua estrat√©gia: "Condenai-me, n√£o importa. A hist√≥ria me absolver√°." Recebeu 15 anos de pris√£o. Anistiado em 1955, ele derrubaria Batista tr√™s anos depois. As informa√ß√Ķes s√£o do jornal O Estado de S. Paulo.

AE
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