Interferência do governo no preço dos combustíveis atrapalha venda de refinarias
Denise Luna e Renée Pereira
Rio e S√£o Paulo
23/06/2018 09h02
A interferência do governo na política de preços dos combustíveis no Brasil, em decorrência da greve dos caminhoneiros, está atrapalhando o processo de venda das refinarias da Petrobras, informaram bancos de investimento envolvidos no processo de privatização das unidades. O plano da estatal é colocar nas mãos da iniciativa privada 25% da capacidade de refino do País - hoje monopólio quase total da estatal.

O an√ļncio da venda de 60% de quatro refinarias da Petrobras foi realizado em abril deste ano, quando a estatal divulgou o plano de vender o controle de duas unidades no Nordeste (Abreu e Lima e Landulpho Alves) e duas no Sul (Alberto Pasqualini e Presidente Get√ļlio Vargas), al√©m de outros ativos ligados √† log√≠stica do refino, como oleodutos e terminais.

Na √©poca do an√ļncio da venda, no auge da pol√≠tica de ajustes di√°rios do diesel e da gasolina da gest√£o Pedro Parente, a expectativa era de que o neg√≥cio atra√≠sse entre 12 e 14 interessados, que demonstravam boa receptividade aos ativos, segundo bancos de investimentos que participam das negocia√ß√Ķes. Agora, revelam fontes desses bancos, est√° sendo dif√≠cil at√© mesmo ser recebido pelos poss√≠veis interessados.

O prazo para o fechamento de um acordo entre os interessados nas refinarias e a estatal foi estendido até 2 de julho, para que outras empresas que já manifestaram interesse possam participar do processo, ampliando a competitividade, informou a Petrobras no início da semana.

A estatal disse que cinco empresas assinaram o termo de confidencialidade para avaliar a compra das participa√ß√Ķes.

Segundo fontes que acompanham o processo de venda, o congelamento do diesel e a decis√£o de delegar √† Ag√™ncia Nacional do Petr√≥leo, G√°s Natural e Biocombust√≠veis (ANP) o protagonismo na formula√ß√£o de uma pol√≠tica de pre√ßos para os combust√≠veis mostrou retrocesso do Brasil aos olhos dos investidores globais, e a expectativa em rela√ß√£o ao n√ļmero de interessados caiu em um ter√ßo nas √ļltimas semanas.

Apetite

"O Brasil mandou dois sinais incongruentes: tem refinarias √† venda e, ao mesmo tempo, lan√ßou uma consulta p√ļblica para regular a periodicidade dos ajustes dos combust√≠veis. Ningu√©m vai vir assim, ningu√©m sabe o que vai acontecer", avaliou a pesquisadora Fernanda Delgado, da FGV Energia.

A mudan√ßa de apetite dos investidores em rela√ß√£o ao refino reflete a decis√£o sobre o diesel e a da ANP de abrir consulta p√ļblica para definir a periodicidade dos ajustes de pre√ßos, o que √© considerado uma interven√ß√£o no setor pelo mercado, j√° que significa, de alguma maneira, a volta do controle de pre√ßos.

De acordo com o diretor do Centro Brasileiro de Infraestrutura, Adriano Pires, nenhum país consegue atrair investidores em meio a uma instabilidade política e de insegurança jurídica, como ocorre no momento no setor de refino brasileiro.

"O setor de downstream (transporte e distribui√ß√£o de produtos da ind√ļstria do petr√≥leo) deixou de ter estabilidade regulat√≥ria e seguran√ßa jur√≠dica, ningu√©m vai investir assim. Enquanto o governo n√£o recuperar essa estabilidade, n√£o vai vender", afirmou Pires. As informa√ß√Ķes s√£o do jornal O Estado de S. Paulo.

AE
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