MPF investiga 429 clientes do banco de Dario Messer
Julia Affonso e Fabio Serapi√£o
São Paulo e Brasília
17/05/2018 10h54
A for√ßa-tarefa da Opera√ß√£o Lava Jato no Rio investiga uma lista com 429 clientes do banco Evergreen (EVG), controlado pelo doleiro Dario Messer, em Ant√≠gua e Barbuda, at√© meados de 2013. Da rela√ß√£o, constam 119 offshores e 145 contas de pessoas f√≠sicas. S√£o empres√°rios, doleiros, esportistas, nomes ligados a pol√≠ticos, servidores p√ļblicos e personagens de casos recentes de corrup√ß√£o.

A lista, √† qual o jornal O Estado de S. Paulo teve acesso teve acesso, foi entregue pelos doleiros Vinicius Claret, o "Juca Bala", e Cl√°udio Barboza, o "Tony", que atuavam para Messer a partir do Uruguai. Os dois s√£o delatores da Opera√ß√£o C√Ęmbio, desligo, deflagrada no dia 3 de maio pela Pol√≠cia Federal.

O Minist√©rio P√ļblico Federal quer identificar quais clientes do banco t√™m rela√ß√£o com casos de corrup√ß√£o, quais sonegaram recursos e, ainda, aqueles que mantinham valores fora do Pa√≠s de forma regular.

Em relatório ao juiz federal Marcelo Bretas, da 7ª Vara Criminal Federal do Rio - responsável por autorizar a operação da PF -, os procuradores afirmam que "muitas contas" foram abertas na instituição "em nome de familiares ou terceiros". Segundo os investigadores, o "banco EVG tinha como escopo a lavagem de dinheiro por meio da ocultação patrimonial de bens de seus clientes".

Messer é considerado o "doleiro dos doleiros". Ele foi alvo de mandado de prisão expedido por Bretas, mas permanecia foragido e foi incluído no alerta vermelho da Interpol.

Conforme as investiga√ß√Ķes, Messer mantinha sociedade no banco com Enrico Machado. "Em 2012, Messer se desentendeu com Enrico, rompendo sua sociedade com ele n√£o s√≥ no Uruguai, como tamb√©m no banco mantido em Ant√≠gua", relatou o Minist√©rio P√ļblico Federal.

A lista de clientes do banco de Messer refor√ßa a vers√£o dos investigadores de que a institui√ß√£o financeira era utilizada para mascarar clientes do doleiro e lavar dinheiro. Entre os "correntistas" do EVG est√£o pelo menos dez doleiros que se valiam de sistemas de movimenta√ß√£o de d√≥lares e reais e tinham a fam√≠lia Messer como garantidores das transa√ß√Ķes.

Na lista dos que mantinham contas no banco estão os irmãos Chebar, responsáveis por levar a Lava Jato até o grupo de Messer. Os delatores Renato e Marcelo Chebar aparecem vinculados a pelo menos três offshores: Blue Stream Investments 1, Blue Stream Investments 2 e Matlock Capital Group.

Os Chebar foram os primeiros a relatar como Messer atuava como "doleiro dos doleiros", garantindo moeda para opera√ß√Ķes transnacionais. Segundo eles, ap√≥s S√©rgio Cabral (MDB) assumir o governo do Rio, em 2007, a movimenta√ß√£o de valores ilegais atingiu uma escala t√£o grande que foi necess√°rio acionar o esquema de Messer.

Fundos de pens√£o

Personagens de outras investiga√ß√Ķes est√£o na lista de clientes do banco. Uma das offshores com conta no EVG, a Phoenix C.V. est√° atrelada a Christian de Almeida Rego e a Roberto de Almeida Rego. Christian Rego foi ouvido em 9 de fevereiro de 2006 na CPI Mista dos Correios. Ele era suspeito de praticar opera√ß√Ķes fraudulentas com fundos de pens√£o patrocinados por estatais.

O ex-diretor da Caixa de Previdência dos Funcionários do Banco do Brasil (Previ) João Bosco Madeiro da Costa está na lista de clientes do EVG, ligado à offshore Frodsham SA. Em agosto de 2013, Madeiro da Costa, o ex-diretor do Banco do Brasil Henrique Pizzolato - condenador no mensalão - e outros quatro investigados foram absolvidos pela Justiça Federal do Rio por crime contra o sistema financeiro. Os ex-dirigentes foram acusados por gestão temerária do fundo de pensão do Banco do Brasil.

Em dezembro daquele ano, a Procuradoria Regional da Rep√ļblica da 2¬™ Regi√£o se manifestou contr√°ria √† absolvi√ß√£o. Os procuradores atribuem aos ex-dirigentes crime cometido na aplica√ß√£o de R$ 150 milh√Ķes da Previ no fundo CVC/Opportunity para o leil√£o de privatiza√ß√£o da Telebras, em 1998.

Outras opera√ß√Ķes

Renato Malcotti, acusado em processo oriundo da Opera√ß√£o Caixa da Pandora - esc√Ęndalo conhecido como mensal√£o do DEM -, tamb√©m est√° na lista do EVG, atrelado a tr√™s offshores (Glasgow LTD, Dudevant Enterprises LLC e Bangkok LTD).

A offshore Royal ST George est√° em nome dos irm√£os Affonso Henrique Mayrink e Pedro Henrique Mayrink. Eles s√£o primos do doleiro Bernardo Freiburghaus, alvo da Lava Jato.

Na terceira página da lista entregue pelos doleiros, consta o nome de Eric Davy Bello, ligado à offshore Terranova Holdings LTD. Ele é filho de Ruy de Mesquita Bello, presidente da RioPrevidência de abril a dezembro de 2002, na gestão de Benedita da Silva (PT), e sócio da corretora de valores mobiliários Turfa.

Pai, filho e outros seis investigados foram denunciados, em 2005, por desvios de R$ 25 milh√Ķes do fundo, por gerir fraudulentamente institui√ß√£o financeira, com base na Lei do Colarinho Branco. Em 7 de junho de 2011, todos foram absolvidos pelo juiz federal Gustavo Pontes Mazzocchi.

O advogado Wagner Madruga do Nascimento, filho do desembargador do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro, Ferdinaldo Nascimento, aparece na lista de clientes do EVG como sócio da offshore Grenoble Ltd. De acordo com a lista obtida pelo Estado, a conta é vinculada ao doleiro Roberto Rzezinski.

O advogado e seu pai foram citados em um esquema de irregularidades envolvendo massas falidas. O desembargador, por causa dessa suspeita, foi alvo de uma investigação no Conselho Nacional de Justiça (CNJ) aberta em 2013. Os irmãos gêmeos Marcelo e Roberto Rzezinski mantinham, cada um, uma conta no EVG.

O empres√°rio Alexandre Accioly tamb√©m est√° na lista. Ele manteve recursos no banco criado por Messer. A ex-jogadora de v√īlei Jaqueline Silva, medalha de ouro na Olimp√≠ada de 1996, em Atlanta, tem, de acordo com a lista, uma conta de pessoa f√≠sica no EVG. Ao lado do nome da ex-atleta h√° a indica√ß√£o "Brasil".

Defesas

O advogado Antonio Figueiredo Basto, que defende Christian de Almeida Rego e Eric Davy Bello, informou que desconhece a lista de clientes.

O desembargador Ferdinaldo Nascimento, do Tribunal de Justiça do Rio, afirmou que não comenta "rumores". O advogado Wagner Madruga do Nascimento, filho de Ferdinaldo, não respondeu aos contatos feitos pela reportagem.

Contatadas, as defesas de João Bosco Madeiro da Costa, Renato Malcotti e Roberto Rzezinski não haviam respondido até a conclusão desta matéria.

Em petição ao juiz Marcelo Bretas, o empresário Alexandre Accioly afirmou que manteve "carteira de investimentos no banco EVG, instituição financeira de médio porte, sobre a qual, naquele momento, não recaía qualquer suspeita". Os advogados relataram que os valores foram regularizados com a Lei da Repatriação.

"Nas suas atividades empresariais de 2005 a 2011, Alexandre Accioly teve pequena parte de suas receitas n√£o declaradas pela din√Ęmica dos pr√≥prios neg√≥cios, recursos estes parcialmente alocados no exterior", registrou a defesa. "Importa dizer que os investimentos, at√© ent√£o mantidos no EVG, foram integralmente transferidos para o Cr√©dit Agricole Private Bank, objeto de regulariza√ß√£o."

A ex-jogadora Jaqueline Silva disse que não se lembra de ter mantido conta no EVG, mas que vai procurar para saber se, na época em que era jogadora e atuava no exterior, manteve valores no banco oriundos da atuação profissional.

Os outros citados ou suas defesas n√£o foram localizados pela reportagem. O espa√ßo est√° aberto para manifesta√ß√Ķes.

AE
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