Odebrecht deve quase R$ 1 bi no Peru
Fernando Nakagawa, enviado especial
Lima
16/04/2018 12h48
"Chegamos a ter quase 300 caminh√Ķes trabalhando ao mesmo tempo. √Č uma pena o que aconteceu com eles e conosco", lamenta Juan Alonso Checa enquanto abre um arquivo no computador. Ele vira a tela e a planilha mostra que a Odebrecht deve mais de 16 milh√Ķes de soles peruanos √† sua empresa.

O drama da MIQ Logistics √© compartilhado por mais 562 empresas que est√£o h√° mais de um ano sem receber da brasileira e, juntas, cobram d√≠vida que j√° passa dos 900 milh√Ķes de soles ou quase R$ 1 bilh√£o. Pe√ßa central do esc√Ęndalo de corrup√ß√£o que tamb√©m levou um ex-presidente para a cadeia no Peru, a Odebrecht est√° com as contas bloqueadas e, enquanto colabora com o Minist√©rio P√ļblico, se esfor√ßa para seguir a vida e tentar se reerguer.

O avanço da operação Lava Jato no Brasil revelou que o esquema de corrupção usado pelas grandes empreiteiras brasileiras foi replicado em vários países da América Latina. Como um fio de novelo puxado, a investigação mostrou que o modelo foi replicado da Argentina à Venezuela.

No Peru, a Odebrecht reconheceu pagamento de US$ 29 milh√Ķes em propina. A not√≠cia de que diversos governos receberam dinheiro ilegal da empreiteira deflagrou uma crise interna sem precedente que, para a Odebrecht, resultou no bloqueio de contas e ativos.

Juan Alonso Checa, gerente-geral da MIQ Logistics, lembra bem desse momento. "Era fevereiro de 2017 e, logo depois do congelamento das contas, paramos de receber." Os caminh√Ķes da empresa de Alonso Checa carregavam tubos para o maior projeto da empreiteira brasileira no Peru: o Gasoduto Sur.

O ambicioso empreendimento de US$ 7,3 bilh√Ķes prev√™ uma rede de gasodutos com 1.134 quil√īmetros de extens√£o para cruzar o pa√≠s em um trajeto complexo que vai do litoral √† floresta e chega a uma altitude perto de 5 mil metros. As obras est√£o paradas e a MIQ Logistics v√™ a d√≠vida crescer US$ 150 mil por m√™s porque a conta da armazenagem dos tubos continua chegando.

S√£o justamente as empresas contratadas para o gasoduto que comp√Ķem a maioria da Associa√ß√£o de Fornecedores da Odebrecht. A entidade re√ļne 563 empresas que t√™m 922,8 milh√Ķes de soles peruanos a receber - cerca de R$ 970 milh√Ķes - sendo que quase 150 empresas n√£o aguentaram e tiveram de fechar as portas nos √ļltimos meses. C√°lculos n√£o oficiais citam que, no efeito domin√≥ do tsunami gerado pela brasileira, mais de 10 mil trabalhadores perderam o emprego.

O grupo que sofreu calote √© variado e vai de fabricantes de motores a empresas de seguran√ßa privada passando por companhias a√©reas, escrit√≥rios de auditoria e fabricantes de caminh√Ķes. Alguns dos empres√°rios da lista v√£o praticamente toda semana cobrar o dinheiro pessoalmente no escrit√≥rio da Odebrecht, instalado em moderno edif√≠cio espelhado em uma das zonas comerciais mais caras de Lima.

Uma das menores d√≠vidas da lista √© da Niban Buffets. Eddy Huamani Mori √© o dono e o sushiman da empresa que atende casamentos e eventos corporativos. "Fornec√≠amos refei√ß√Ķes em almo√ßos corporativos e coffee breaks. Todos os eventos eram bem bonitos, mas fiquei muito tempo sem receber."

Hoje, Mori comemora porque recebeu um inesperado pagamento h√° cerca de duas semanas. "Eles deviam pouco, eram algumas centenas de soles, mas finalmente pagaram."

O sushiman foi beneficiado pelo esforço que a empreiteira tem feito para tentar reduzir a lista de devedores. Desde o congelamento das contas, a empresa ficou sem dinheiro e a venda de ativos precisa ser autorizada pelo governo, que não aprovou a venda de dois grandes projetos: uma hidrelétrica e um empreendimento de irrigação. Sem faturar, o braço de engenharia da Odebrecht conseguiu que o governo flexibilizasse parcialmente a regra e, agora, a venda de equipamentos de até US$ 50 mil pode ser feita sem necessidade de aval.

Assim, computadores e equipamentos de escritório passaram a ser vendidos para retomar pagamentos aos fornecedores. As menores dívidas, como do buffet japonês, têm prioridade e cerca de 200 empresas já receberam algum valor.

A Odebrecht Peru reconhece que deve cerca de US$ 260 milh√Ķes aos fornecedores peruanos - cerca de R$ 890 milh√Ķes. Em nota, a empresa diz que tem bens suficientes para quitar todas as d√≠vidas no pa√≠s, mas "est√° impedida de vender seus bens e, assim, poder cumprir com seus compromissos".

"Os fornecedores têm claro que o problema está nas medidas extraordinárias adotas pelo Estado. Quando o governo permitir o avanço da venda dos ativos, a empresa cumprirá os pagamentos", diz a empresa em nota.

Nome retirado

Quando o governo peruano congelou as contas da Odebrecht, cerca de US$ 18 milh√Ķes em nome da empresa foram bloqueados. Para sair dessa situa√ß√£o, a Odebrecht quer negociar ativos para retomar a vida. Em agosto do ano passado, os brasileiros anunciaram a venda da hidrel√©trica de Chaglla por US$ 1,4 bilh√£o.

O negócio, porém, ainda não teve o aval do governo peruano. Então, nenhum centavo chegou à conta da empresa.

Enquanto o aval do governo n√£o chega, a empreiteira tenta limpar a imagem. Por enquanto, a a√ß√£o mais vis√≠vel foi a retirada do letreiro "Odebrecht" da fachada do edif√≠cio espelhado do bairro San Isidro. As informa√ß√Ķes s√£o do jornal O Estado de S. Paulo.

AE
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