PF monitora Battisti no litoral paulista
Ricardo Galhardo, enviado especial, colaborou Carla Ara√ļjo
Cananeia (SP)
12/10/2017 10h20
A Polícia Federal monitora os passos de Cesare Battisti desde que o italiano foi solto após passar dois dias detido na fronteira com a Bolívia, sob acusação de evasão de divisas. No início desta semana a delegacia de Polícia Civil de Cananeia, no litoral paulista, recebeu um pedido da PF para fotografar a casa onde Battisti vive e confirmar que o italiano estabeleceu residência na cidade.

"Isso é a praxe. Como a Polícia Federal não tem representação aqui ela nos pede apoio", confirmou o delegado Weslley Franklin de Paula. A assessoria da PF foi procurada pela reportagem, mas não respondeu.

O presidente Michel Temer poder√° decidir nos pr√≥ximos dias se revoga ou n√£o o decreto assinado pelo ex-presidente Luiz In√°cio Lula da Silva no √ļltimo dia de seu governo - em 31 de dezembro de 2010 - e extraditar Battisti, condenado √† pris√£o perp√©tua na It√°lia por quatro assassinatos. Na ocasi√£o, Lula n√£o seguiu a decis√£o do Supremo Tribunal Federal (STF) pela extradi√ß√£o. A defesa do italiano apresentou no fim de setembro um habeas corpus na Corte para evitar uma eventual revoga√ß√£o do decreto presidencial.

Segundo fontes do Planalto, a equipe jurídica do presidente está debruçada sobre um parecer que pode servir como justificativa para a extradição do italiano. Temer tem indicado disposição em revogar a decisão de Lula, mas quer evitar qualquer chance de conflito com o Supremo. A tendência é de que o presidente aguarde a decisão da Corte, cujo relator do caso é o ministro Luiz Fux.

Battisti voltou no domingo √† noite para Cananeia, cidade hist√≥rica de 12 mil habitantes localizada no litoral sul de S√£o Paulo. Desde que saiu de Embu das Artes, na Grande S√£o Paulo, h√° mais de um ano, ele divide o tempo entre a cidade litor√Ęnea e S√£o Jos√© do Rio Preto, no interior, onde moram sua mulher e o filho de 4 anos. Nos documentos enviados √† Justi√ßa, o endere√ßo de Battisti √© o de S√£o Jos√© do Rio Preto.

Na semana passada, ele foi detido com mais dois amigos quando tentava atravessar a fronteira com a Bolívia em Corumbá, em Mato Grosso do Sul, com US$ 6 mil e ¤ 1,3 mil. Ele ficou preso sob a acusação de evasão de divisas. Foi solto depois por ordem do Tribunal Regional Federal da 3.ª Região.

Em recente entrevista à TV Tribuna, de Santos, o italiano classificou a prisão como uma "armadilha" e disse que, por lei, tem o direito de sair do Brasil quando quiser.

Battisti foi condenado na Itália em 1993 pelo envolvimento no assassinato de quatro pessoas na década de 1970, quando integrava o grupo extremista de esquerda Proletários Armados pelo Comunismo (PAC) e é alvo de pedidos de extradição por parte do governo italiano. Ele nega participação nos crimes.

Para amigos, tanto a pris√£o em Corumb√° quanto o monitoramento da PF s√£o sinais de que Temer pode revogar o decreto assinado por Lula. "Cesare est√° na t√≠pica posi√ß√£o de trof√©u. √Č como aqueles filmes de caub√≥i que tinham a figura do ca√ßador de recompensas. √Č uma obsess√£o", disse o historiador italiano Carlos Lungarzo, autor de um livro sobre o caso. Segundo ele, Temer pode ser levado a tomar uma decis√£o mais pol√≠tica do que jur√≠dica. "N√£o h√° um motivo para que ele n√£o possa sair do Pa√≠s. Tudo isso √© uma manobra pol√≠tica."

Rotina

Em Cananeia, Battisti desfruta da rotina tranquila de uma cidade pequena. Mora em uma casa simples, com port√£o de alum√≠nio e uma bandeira do Corinthians perto da entrada. H√° tr√™s meses constr√≥i sua pr√≥pria resid√™ncia no Bairro Carijo, a alguns quarteir√Ķes da √°rea central. Segundo os pedreiros que trabalham na obra, √© uma casa de dois quartos em um terreno com 10 metros de frente e 30 de fundos.

"Para a Polícia Civil, Battisti é apenas mais um morador da cidade no gozo de seu direito de ir e vir", afirmou o delegado Franklin de Paula.

Battisti vive de tradu√ß√Ķes que faz para editoras francesas e dos direitos autorais dos livros que escreve. Atualmente est√° terminando um romance de fic√ß√£o hist√≥rica que se passa em Cananeia intitulado Quil√īmetro Zero.

Apesar do aparente anonimato, quase todos na cidade conhecem a hist√≥ria de Battisti. De vez em quando a presen√ßa do "terrorista" - como costuma ser chamado - desencadeia ondas de boataria. A √ļltima dava conta de que "os italianos" iriam explodir a casa onde Battisti morava para lev√°-lo de volta √† It√°lia.

Conforme moradores, o italiano, que vive foragido desde 1981, costuma andar a p√©, gosta de conversar sobre assuntos diversos, principalmente futebol, mas evita falar sobre o pr√≥prio caso. As informa√ß√Ķes s√£o do jornal O Estado de S. Paulo.

AE
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