Entrevista
“Poupar agora para não faltar no ano que vem”
Foto: Toninho Tavares/Agência Brasília
Albert Queiroz
14/11/2017 07h42

O Distrito Federal vive no ano de 2017 a pior crise hídrica já enfrentada em sua história. A escassez de água mudou a rotina e o modo de vida do brasiliense, que teve que se adaptar a mudanças na forma de consumo do recurso. Os reservatórios do Descoberto e de Santa Maria que juntos abastecem 80% do território do DF, chegaram a níveis preocupantes pondo em alerta toda a população e fazendo com que o governo tomasse medidas visando reduzir o consumo, como por exemplo, a implantação de racionamento por meio de rodízio no fornecimento de seis em seis dias durante 24 horas, com grandes chances de ser estendido para 48 horas caso a situação não melhore. 

Condições climáticas, baixo volume de chuvas, crescimento urbano desordenado, ligações e desvios clandestinos próximos as bacias e nascentes, falta de melhorias no gerenciamento do sistema de abastecimento, são fatores que pontuaram para que a situação chegasse a esse ponto. Para tentar entender um pouco mais sobre esse quadro e as expectativas de melhoria, o Alô foi conversar com o diretor-presidente da Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa), órgão do governo responsável pela gestão de águas, energia e saneamento básico do Distrito Federal, Paulo Salles. 
 

Quais os motivos levaram o Distrito Federal a atravessar essa que é a pior crise hídrica já vivida na história da capital?

Existe uma série de fatores que vão desde a ocupação desordenada do solo, com aterramento de nascentes para construção de condomínios, atrasos em obras que já poderiam ter sido concluídas há anos, mas foram paralisadas por órgãos de fiscalização ou falta de recursos, até mudanças climáticas em escala global.

Além da chuva, o que ainda precisa acontecer para que o problema da falta d’água seja resolvido?

O Governo de Brasília está investindo em obras para ampliar a disponibilidade hídrica no DF. Além dos Subsistemas do Lago Paranoá e do Bananal, já inaugurados em outubro, Corumbá IV, que tem previsão de conclusão até o fim de 2018, deve garantir o abastecimento da população do DF pelos próximos anos.

O Distrito Federal vive hoje grande expectativa em relação ao racionamento de 48 horas, o que garantiria a não necessidade disso acontecer?

Vários fatores estão em análise, como volume das chuvas, consumo de água e ritmo de recuperação dos reservatórios. A Adasa realiza estudos para estimar que nível os mananciais precisam alcançar para que o DF consiga atravessar o próximo período de seca com segurança. Ou seja, a preocupação não é apenas com 2017, mas com 2018 também. Precisamos poupar o máximo de água agora para não faltar no ano que vem. 

As pessoas tinham em mente até então que a água era um recurso abundante e quase que inesgotável devido o Brasil ser um país privilegiado em recursos naturais. A crise atual nos mostrou que não é bem assim, que a água está acabando e que pode acabar. O que você acredita que pode ser feito para “reeducar” a população nesse sentido?

A população do DF, do Brasil e do mundo deve se habituar à cultura da escassez de água. Os hábitos de uso racional da água devem ser incorporados de vez ao dia a dia das pessoas. A Adasa possui o programa Adasa na Escola, que educa e transforma estudantes em multiplicadores de hábitos de uso racional da água. O 8º Fórum Mundial da Água, que acontecerá em 2018 em Brasília e é o maior evento global sobre o tema água, será uma oportunidade para discutir soluções para esse problema ao reunir especialistas, acadêmicos, estudantes, iniciativa privada, organizações civis, políticos e tomadores de decisão, judiciário e sociedade em geral.

Ao que parece, as chuvas em novembro tendem a cair com mais intensidade, se confirmada as expectativas, como elas podem contribuir num espaço de tempo para a melhoria do volume dos reservatórios? Existe algum estudo, projeção ou acompanhamento nesse sentido? 

Esses estudos estão em andamento. No entanto, as previsões meteorológicas indicam chuvas abaixo das médias históricas para os próximos meses e é difícil estimar em quanto tempo os reservatórios atingirão um volume considerado seguro para atravessar o próximo período de seca.

Diversos países pelo mundo utilizam sistemas de reúso visando combater o desperdício e a falta d’água, muitos deles com êxito, no momento em que foram adotadas medidas emergenciais, já cogita-se ações neste sentido por aqui?

A Adasa prepara resolução, que deve ser publicada em breve, com diretrizes, padrões e critérios de qualidade da água de reuso e de aproveitamento de chuvas para residências. Também estão em andamento estudos sobre esse tipo de reutilização em indústria, comércio e órgãos públicos.

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