Trump passa de vilão 'caquético' a 'supremo líder' na mídia estatal norte-coreana
14/06/2018 13h09
Os norte-coreanos veem um novo Donald Trump ap√≥s a c√ļpula entre Coreia do Norte e Estados Unidos. Agora, o presidente americano est√° longe do r√≥tulo de "caqu√©tico", usado pelo regime de Kim Jong-un no ano passado. Antes da reuni√£o em Cingapura, mesmo em um dia bom, o m√°ximo que o governo ou a m√≠dia estatal norte-coreana diziam era apenas "Trump", sem men√ß√£o ao cargo ou algum sinal de respeito pelo presidente americano. Agora, ele √© chamado de "presidente dos Estados Unidos da Am√©rica", "presidente Donald J. Trump" ou at√© mesmo "l√≠der supremo", nomenclatura utilizada por Kim.

A reuni√£o dessa semana mudou completamente a vers√£o oficial da Coreia do Norte, que passou a retratar Trump como uma figura s√©ria, quase mon√°rquica, demonstrando como a narrativa oficial √© cuidadosamente constru√≠da pelo governo para manter o povo ideologicamente a bordo das grandes mudan√ßas em andamento entre Pyongyang e Washington. Os norte-coreanos foram ensinados, desde a inf√Ęncia, a odiar e desconfiar dos chamados "imperialistas americanos".

O tempo entre a realiza√ß√£o da c√ļpula e a transmiss√£o dos primeiros v√≠deos e fotos do evento na Coreia do Norte, nesta quinta-feira, 14, parece ter sido cuidadosamente escolhido pela televis√£o estatal. S√≥ dois dias depois √© que a popula√ß√£o teve acesso √†s imagens do encontro em Cingapura. Para os norte-coreanos, a estrela foi Kim. A primeira apari√ß√£o de Trump e o aperto de m√£os hist√≥rico foram exibidos quase 20 minutos depois do programa, que durou 42 minutos, ter iniciado.

O apresentador do programa, de maneira dramática e quase em tom musical, descreveu Kim como um estadista à frente de seu tempo, confiante, educado, rápido em sorrir e firmemente no controle. Segundo a narrativa do programa, Kim permitiu que Trump, que tem quase o dobro de sua idade, se inclinasse em direção a ele para apertar suas mãos.

Antes de mostrar os dois assinando a declaração conjunta, o narrador disse que Trump fez questão que Kim olhasse sua limusine, conhecida pelos americanos como "A Besta". Em determinado ponto, o programa descreveu Trump e Kim como os "dois líderes supremos" de seus países.

A viagem de Kim a Cingapura foi exibida como um document√°rio cronol√≥gico, come√ßando no tapete vermelho do aeroporto de Pyongyang e no voo fretado da Air China. Em seguida, veio um v√≠deo de sua carreata em dire√ß√£o ao Hotel St. Regis, em Cingapura, enquanto multid√Ķes de simpatizantes acenavam pelas ruas, como se esperassem uma estrela de rock.

A transmiss√£o da c√ļpula pela m√≠dia estatal √© de extrema import√Ęncia, porque d√° √† popula√ß√£o norte-coreana, que tem acesso limitado a outras fontes de not√≠cias, uma ideia do que est√° acontecendo e de como o governo espera que os cidad√£os reajam.

Para a m√©dia da popula√ß√£o, a cobertura estatal da campanha diplom√°tica neste ano deve parecer surpreendente. Depois de enviar uma delega√ß√£o de alto escal√£o para a Olimp√≠ada de Inverno na Coreia do Sul, em fevereiro, Kim se reuniu duas vezes com o presidente sul-coreano, Moon Jae-in, e com o presidente chin√™s, Xi Jinping. Todas as reuni√Ķes foram not√≠cia na m√≠dia estatal, apesar de terem sido divulgadas geralmente com um dia de atraso, para garantir determinado tom ideol√≥gico e as imagens mais poderosas.

No per√≠odo que antecedeu a c√ļpula, a m√≠dia norte-coreana suavizou a ret√≥rica, para que a atmosfera de prepara√ß√£o para o encontro n√£o fosse estragada. Por anos, os EUA foram apontados como o lugar mais maligno do planeta, ao lado do Jap√£o, antigo governante colonial do territ√≥rio coreano.

Pyongyang chegou a dar respostas fortes para os coment√°rios do vice-presidente dos EUA, Mike Pence, e do conselheiro nacional de seguran√ßa, John Bolton, e se manteve cr√≠tica aos "valores capitalistas". No entanto, as refer√™ncias diretas a Trump foram m√≠nimas. Bolton √© alvo da ira do governo norte-coreano desde que serviu durante o governo de George W. Bush, mas no programa de quinta-feira, ele foi apresentado novamente ao p√ļblico no momento em que apertou a m√£o de Kim.

Depois da conclusão do desmonte do programa nuclear, a Coreia do Norte tem a estratégia diplomática como plano principal. Por anos, Pyongyang afirmou que a pressão pela desnuclearização era uma política de hostilidade e "chantagem nuclear" de Washington. Fonte: Associated Press.

AE
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