'Vão me entregar à morte', diz Battisti
Ricardo Galhardo, enviado especial
Cananeia (SP)
12/10/2017 10h00
Enquanto o presidente Michel Temer espera um parecer da Subchefia de Assuntos Jur√≠dicos para decidir sobre a extradi√ß√£o de Cesare Battisti, o italiano de 62 anos perde noites de sono em uma casa simples emprestada por um amigo, decorada com p√īsteres da antiga Uni√£o Sovi√©tica, Karl Marx, Palestina e Guernica, de Pablo Picasso, no centro de Cananeia, no litoral sul de S√£o Paulo, onde recebeu a reportagem para uma entrevista. Segundo Battisti, condenado √† pris√£o perp√©tua na It√°lia pelo assassinato de quatro pessoas - que ele nega - a extradi√ß√£o equivale a uma pena de morte.

Durante quase uma hora, ele disse que, se tivesse de fugir, seria para o Uruguai, e n√£o para a Bol√≠via, acusou a Pol√≠cia Federal de promover uma armadilha contra ele com ajuda da Embaixada da It√°lia, admitiu que s√≥ um governo do PT negaria sua extradi√ß√£o, rejeitou a luta armada como m√©todo de milit√Ęncia nos dias atuais e disse manter a f√© na ideologia que defendeu desde a adolesc√™ncia. "Por que n√£o tenho direito a ficar aqui?", questionou. Leia os principais trechos da entrevista:

Como foi sua pris√£o em Corumb√°, na fronteira?

Estava indo com dois amigos pescar. Um de nós já havia ido lá, conhecia, e decidimos ir em um shopping para comprar casacos de couro, que são mais baratos, vinhos e material para pescar. Foi uma besteira porque a informação que eu tinha era que o shopping não estava em território boliviano, estava numa zona franca. Mas eles (policiais federais) estavam atrás da gente. Estavam esperando. Há tempos esta operação vem sendo armada com ajuda da Embaixada Italiana. Era evidente. Tinha pessoal que não era para estar trabalhando na fronteira. O fato é que estava tudo preparado, uma festa na delegacia. Estavam bem contentes, dançavam. Estavam convencidos que de lá eu iria para a Itália, que não me soltariam.

A Polícia Federal o acusa de evasão de divisas.

Como se sustenta que três pessoas viajam e dois deles não tem nenhum centavo? Não dá. Eles começaram a pegar o dinheiro dos três, colocaram em cima de uma caixa de papelão. Espalharam como se fosse uma dessas malas aí e começaram a fazer fotos. O dinheiro era dos três, mas eles já começaram com essa história que estão contando agora (de que o dinheiro era todo de Battisti). Quando alguém tentava dizer que era dono do dinheiro, eles mandavam calar a boca. Eles forjaram um crime que não existia. Confesso que não tinha nem ideia dessa coisa de fronteira, mas o dinheiro era dos três.

O que você pretende fazer caso Temer decida pela extradição?

N√£o sabemos nada porque os advogados pediram informa√ß√Ķes aos minist√©rios que teriam se ocupado deste assunto ultimamente, mas n√£o entregaram nada. Ent√£o n√£o sabemos em que se baseia o gabinete jur√≠dico da Presid√™ncia para que eu possa ser extraditado. N√£o sei se o Brasil vai querer se manchar sabendo que o governo e a m√≠dia criaram este monstro na It√°lia. V√£o me entregar √† morte.

A decisão do STF, que em 2009 determinou sua extradição, não é um bom argumento jurídico?

STF que tamb√©m disse que a √ļltima palavra seria do presidente da Rep√ļblica. Por que n√£o tenho direito a ficar aqui?

A Bol√≠via √© um dos √ļltimos pa√≠ses da Am√©rica do Sul que t√™m um governo de esquerda ainda est√°vel. Em algum momento voc√™ pensou em sair de um pa√≠s onde a esquerda saiu do poder e ir para ao Bol√≠via?

N√£o pensei, mas, se fosse sair do Pa√≠s, n√£o iria para a Bol√≠via. Tenho mais rela√ß√Ķes no Uruguai. Teria ido para o Uruguai. √Č um pa√≠s um pouco mais confi√°vel. N√£o estou certo dessa estabilidade a√≠ (da Bol√≠via).

Voc√™ √© de uma fam√≠lia de comunistas. Seu pai e seu av√ī eram comunistas. Valeu a pena ter lutado por aquela ideologia?

Valeu e vale ainda. Não acredito que o mundo melhorou. Então por que não valeria a pena mais? Mas pensar hoje em fazer um movimento armado como foi comum em quase todos os países do mundo é uma loucura.

Na época não era loucura?

Olha, √© claro que a gente cometeu alguns erros. √Čramos meninos e meninas de 20 anos que viam os companheiros baleados na rua, a m√°fia no poder, atentados com 50, 70 mortos. Como reagiam meninos de 20 anos politizados? Antes que ele me mate vou matar ele. Se organizam. Claro que foi um suic√≠dio. Tinha muita influ√™ncia da Revolu√ß√£o Cubana, do Vietn√£. Aquilo esquentou a cabe√ßa do mundo inteiro. Fora de contexto √© dif√≠cil entender. Aquilo n√£o era terrorismo. Nunca fui acusado de terrorismo. Um movimento n√£o faz isso. Um movimento de luta armada, se interv√©m, interv√©m visando a pessoas e situa√ß√Ķes. N√£o √© colocar bomba na rua.

Você matou alguém?

Não matei ninguém. Tanto que me acusam de um homicídio que aconteceu quando eu não estava mais na Itália.

Como você decidiu vir para o Brasil?

Eu tinha que ir para algum lugar. Já não podia ficar na França. Escolhi o Brasil porque tinha outros refugiados e eu estava em contato com eles, no Rio de Janeiro.

O fato de ser um governo de esquerda influenciou?

Claro. Não iria para um país com governo de direita. Mas foi principalmente porque tinha outros refugiados aqui. Esses refugiados não foram (aceitos) pelo Lula, foram pelo Fernando Henrique Cardoso.

Se o decreto não tivesse sido assinado por Lula, mas por Fernando Henrique, por exemplo, você estaria correndo risco de extradição?

√Č contradit√≥ria a coisa, porque, se n√£o fosse o governo do PT, n√£o teria o decreto. Quem sabe?

Fernando Henrique n√£o teria dado o asilo?

Ele fez para os outros, mas eles não tinham toda essa pressão que eu tenho. Comigo virou um caso pessoal. A Embaixada deve ter um setor que cuida só da extradição de Cesare Battisti. Porque não para.

O que mais preocupa você no caso de ser extraditado?

O que me preocupa demais √© a ideia de que n√£o vou mais ver meu filho se acontecer isso. Ele vai fazer 4 anos no dia 13 de novembro. Outra coisa horr√≠vel √© que n√£o se pode dar a possibilidade a uma pessoa de se reproduzir e se criar em um pa√≠s legalmente e de repente tirar tudo. Que √© isso? √Č uma coisa horr√≠vel. √Č monstruoso. N√£o sou clandestino, n√£o estou cometendo atos il√≠citos.

Em caso de uma decisão favorável como você vê o seu futuro no Brasil? Vai sentir-se seguro?

Eu estou no Brasil. Para mim o Brasil é o meu país. Eu penso em português, sonho em português. O meu problema é que estou escrevendo em francês ainda, mas vou ter de mudar porque cada vez mais não consigo pensar em português e escrever em francês. O resultado não é excelente. Eu até antes de Corumbá estava tranquilo.

A prisão em Corumbá desencadeou este processo que pode levar à extradição?

N√£o. O processo j√° estava em curso. Se n√£o fosse em Corumb√° seria em S√£o Paulo ou Curitiba. O plano estava pronto. Qualquer pretexto era bom.

As informa√ß√Ķes s√£o do jornal O Estado de S. Paulo.

AE
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